A Cabala Dogmática

A segunda questão que vamos colocar é a da imagem. Qual é então a imagem de Deus? Podemos supor que este andrógino macho e fêmeo seja análogo ao “ver” e ao “falar”. A criação de Adão, nós o sabemos, é representativa da criação do humano. Esta criação à “imagem” não descreve um modelo antropomórfico, mas refere-se ao princípio da criação tal como é expresso pelo “Bereshit” e os sete dias da Gênesis, o universo microcosmo humano sendo semelhante ao grande universo macrocosmo do qual fala a primeira parte do Livro do Gênesis. “A imagem”, Tselem em hebreu, é Tsel, “a sombra”, a profundeza obscura, o abismo, as águas “Mem”, necessariamente múltiplas como os muitos níveis de realidade.

Se a Torá afirma que Deus não tem forma, qual o significado do versículo: “E Deus disse: Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança” (Gênesis 1:26)? E a quem Ele estava falando? Poderia ser um engano da língua Divina? “E Deus disse: Modelemos [Deus e as Criações] a humanidade em nossa essência, então ele será como nós, e [somente então] eles [a raça humana] dominarão os peixes do mar, as aves do céu e os animais, e toda a terra, e tudo que se mover sobre a terra”. O homem é a única criatura a ser apresentada individualmente na cena, porque o Homem é o ponto alto da criação.

Tudo foi criado para ele e seu uso. Está subentendido que o Homem é, portanto considerado responsável por suas ações, pois estas afetam não apenas a ele, como também todas as criaturas de Deus. O Homem não foi feito “segundo sua espécie” como um animal, em grandes quantidades, mas “… à Nossa imagem” como Deus, como um
único indivíduo. Assim como Deus é Um, assim também o homem foi criado Um.

O ser humano é a mais complexa de todas as criaturas. Sua existência é uma batalha constante de forças opostas puxando-o em direções diferentes. Não admira que o homem seja a única criatura que busca a terapia! Sua dualidade se estende até os extremos de todos os espectros: desde a fúria infundada até atos absurdos de bondade, da inspiração enérgica à depressão patética, da crueldade ao altruísmo, da consciência à indiferença, da espiritualidade ao materialismo. É como se todas as forças da natureza estivessem comprimidas em uma pequena criatura chamada Homem.

Porém o homem é também da essência de Deus, como está explicado no versículo: (Gênesis 1:27): “… na essência de Elohim Ele o criou.” A costumeira má tradução erra ao traduzir: “à imagem de Deus Ele o criou” – mas não foi o que acabamos de ler? O que a Torá está nos dizendo é que o homem foi feito similar a Elohim, (um dos nomes Divinos, que significa “juiz”) Em outras palavras: À imagem do Juízo Ele o criou. Ter a “imagem” de Deus significa não apenas possuir ânsias espirituais como somente o Homem possui, como também a habilidade de julgar entre opções moralmente boas ou más.

Deus criou o homem para que ele pudesse “dominar os peixes…” Estou certo de que Deus poderia ter pensado em um propósito melhor para o homem!”… e [somente então] eles [a raça humana] dominarão os peixes do mar, e as aves do céu e os animais e tudo sobre a terra, e tudo que se mover sobre a terra”. Quando o homem atinge este já mencionado equilíbrio entre o material e o espiritual, ele na verdade “domina os peixes do mar…” e toda a matéria física (exceto outras pessoas!). Ele demonstra que está um ponto acima deles… e atinge o próprio pináculo da Criação, tornando-se um parceiro do Próprio Deus na Criação.

Quando o tentador ofereceu o fruto proibido (Gênesis 3:5), diz: “vossos olhos se abrirão e sereis como Elohim”, promessa de um porvir dependendo de uma visão, a ordem original se inverte. A esperteza proposta pela serpente consiste em dizer ao princípio feminino para suplantar o masculino interior e inverter a ordem, graças a uma suposta aptidão para atingir diretamente a semelhança, (“como Elohim”) sem a mediação do “ver”, da luz não dual, pelo simples poder da palavra tornada dual. A serpente torna-se barreira às bodas do esposo e da esposa pela negação do “ver” original, criando a ilusão de uma possível unidade que a dispensaria.

Eva, como sujeito atuante, como palavra que permanece no pensamento, possui uma virtude imanente que procura um acesso direto à transcendência pela dualidade da língua serpentina e pela mera intelectualidade, que simboliza o consumo do fruto proibido, que sabemos permitir o conhecimento do bem e do mal. A falta consiste em comer um fruto cuja Árvore, colocada no centro do Paraíso, supõe, como o ato criador, aptidões integradoras e unificadoras subentendidas por uma dualidade operativa que Eva não possui.

Esse conhecimento, inicialmente contraditório, portado pelo “ver”, com o exílio do Paraíso, passa a ser sustentado pelo princípio de não contradição que separa o bem e o mal, um excluindo o outro. O feminino absorve a dualidade, que passa a ser juiz, racionalizando em bem e em mal, sem passar previamente pela integração, pela unificação do “ver”. O lado sombra, na imagem, perverte-se, querendo ter acesso diretamente à unidade, à semelhança, falando a “linguagem da serpente”, ao invés de usar conjuntamente a “linguagem dos pássaros” não dual, intimamente associada à visão simbólica. Desposar a imagem supõe, ao contrário, unificar a totalidade das águas, aquelas do “ver”, masculino – sugerindo, etimologicamente, a capacidade para recordar, em hebraico -, e aquelas do “falar” feminino – como matriz como realização do “ver” em parábola. 

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