A Cabala Dogmática

Uma terceira questão resulta das outras duas, fundando os diferentes níveis de realidade. Depois de ter comido o fruto, Deus faz a seguinte pergunta surpreendente a Adão: “Adão, onde estás?” (Gênesis 3:9), o que deixa entrever várias interpretações, entre as quais a primeira sugere que Adão já não estava diretamente acessível ao olhar de Deus. Um e outro já não se veem. Podem apenas se ouvir (Gênesis 3:8). Mas fazendo esta pergunta: “Onde estás?”, Deus leva também Adão a se questionar sobre o seu ser, sobre o significado de seu ato, sobre a essência de sua pessoa. A transgressão faz perder um lugar, uma topologia edênica, para atingir outro lugar, onde Adão está desde então.

Esta questão apresenta um paradoxo. Adão, evidentemente, está onde ele está. Mas se Deus faz esta pergunta é porque a relação está cortada, é porque Adão se perdeu. A declaração divina inaugura a interrogação sobre si mesmo como abordagem paradoxal do “quem sou eu?”, questão ligada necessariamente ao “onde estou eu?”. A busca ontológica do sujeito, pelo consumo do fruto da árvore, não pode se dissociar da procura de níveis de realidade, ela mesma relacionada com os níveis de conhecimento, pois, desde então, distinguem pelo menos três níveis: 1) o de Deus, 2) o do Paraíso e de sua terra celeste (“Adamah”), e, por fim, 3) o da natureza terrestre sustentada por “Erets”, a terra seca da manifestação física.

No novo lugar de exílio, a busca de si mesmo de Adão consistirá desde então em uma dupla interrogação: saber quem somos torna-se indissociável de saber onde estamos. Esta nova atividade cognitiva, conseqüência da passagem de um lugar a outro, faz sair de si mesmo, esquecer-se de si mesmo para esperar, talvez, reencontrar-se. Todo o problema consiste então no discernimento dos lugares: um interior, que especificaria a identidade; outro exterior, que manifestaria a identificação, a falsa identidade. A autobiografia, o “conhece-te a ti mesmo”, a busca iniciática, levam à interrogação simultânea a respeito dos dois lugares de nossa morada, um pertencendo ao universo exterior e o outro à s divindades interiores.

Todavia, para essa busca não basta uma reflexão sobre a nossa vida, não basta escrevermos os eventos [da nossa vida], pois isso só manifesta uma das duas faces indispensáveis desse questionamento. Se em seu ato de separação o casal das forças anímicas deixa de ver Deus, ainda pode escutá-lo (Gênesis 3:8). A visão interior está cortada, mas a escuta interior da Palavra ainda é possível, com a condição de que ela seja distinguida da palavra da serpente. Subtraída à visão divina, tornada inconsciente, a dupla face do homem – confundida, no ato da separação, com o corpo de pele, com a irreversibilidade do futuro temporal, com a morte e com o despertar da consciência dual – traz em seu interior apenas virtualmente a plenitude de uma ontologia integral. O drama no Céu coloca o mistério da visão da natureza celeste e do conhecimento real. Inicialmente, a serpente se opõe à ordem divina de não comer o fruto da Árvore, sugerindo, (Gênesis 3:5) ao contrário, o consumo do fruto, “pois Elohim sabe que no dia em que comerdes dele, vossos olhos se abrirão e sereis como Elohim”. A tentação sugerida pela serpente não se dirige ao mesmo nível que aquele de onde Deus fala no Paraíso. Ela tem como conseqüência o dualismo não ontológico entre visão e voz inerente ao exílio da terra original, dualismo no qual a voz toma a dianteira em relação à visão, invertendo a ordenação inicial.

Separando-se de Deus, depois da imagem ela mesma, o homem espera resolver seu sofrimento por meio do conhecimento do mundo que o cerca e que o remete a si mesmo. Resta-lhe escutar a voz, “Shema Israel”, no silêncio que reorienta para a Terra prometida, para o Oriente das Luzes teofânicas. Coloca-se então um duplo problema, o do nosso monólogo e o da nossa imaginação, o da natureza do nosso discurso e o da natureza das nossas visões. Quem fala? Quem vê? Onde? Em qual lugar de nós mesmos nós vemos, nós escutamos? Qual é o lugar da palavra e da visão? A tentação é da ordem do consciente, como o conhecimento objetivo de fora. A Imagem, a Forma verdadeira, o Nome estão selados em nossas profundezas como o conhecimento de dentro.
O adversário, a serpente, dirige-se a Ishá, a esposa, à parte que está desperta enquanto Adão dorme. Na verdade há um ser diurno e um ser noturno. O problema é o acesso ao ser noturno, ou, mais exatamente, à relação entre um e outro. Se o exílio neste mundo é um nascimento existencial, o ato que renova a aliança com a nossa polaridade noturna é um “segundo nascimento”, não-dualidade, exílio do exílio, retorno ao mundo das visões, acesso ao mundo imaginário. A questão que então se coloca é perceber o processo de separação e de relação entre o consciente e o inconsciente, entre a dualidade e a não-dualidade. É preciso poder apreender o que é o Mesmo, o semelhante e o que é o Outro, o diferente, a fim de distinguir e religar as duas faces de nossa natureza humana.

Portanto, há realmente no universo da imaginação diferentes níveis de conhecimento que respondem à questão colocada a Adão: “Onde estás?”, e nos quais a resistência oferecida pelo objeto deve ser penetrada pela imaginação cognitiva do sujeito, de acordo com as modalidades próprias a cada um dos níveis de realidade. O pensamento dualista, mediante seu princípio de razão suficiente, operando por dedução, pretende reduzir imediatamente a diferenciação de níveis distintos a uma alternativa entre ilusão e exclusão quando aborda o imaginário. Ele [o pensamento dualista] cria uma separação entre duas determinações, o verdadeiro e o falso que dividem o campo dado. Nessa alternativa, o verdadeiro necessariamente rejeita a imaginação. Por outro lado, o pensamento complexo e a lógica do terceiro incluído consideram vários níveis de percepção ou de imaginação.

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