A Cabala Dogmática

A Gênesis Oculta

Do teor das discussões entre os rabinos do Zohar, tem um trecho muito significativo, uma pergunta: MI BARA ELEH? Quem fez aquilo? A resposta é a junção de duas palavras MI e ELEH (ELOHIM): “Quando o mistério dos mistérios quis se manifestar produziu um simples ponto que foi transmutado em pensamento e este pensamento realizou inúmeros
traços e gravou inúmeros desenhos. Logo gravou a Centelha Sagrada (Zohar), com um traço muito misterioso e sagrada que foi uma obra maravilhosa saída do melhor pensamento. Assim foi a Origem da Obra, existindo e não existindo, profundamente oculta, inominável; chamou-a simplesmente de MI (Quem). Deixou manifestar-se e foi  chamada por seu nome. Revestiu-se então de uma preciosa vestidura de resplendor (Zohar) e criou ELEH que foi o seu nome. As letras das duas palavras MI e ELEH se reúnem para formar o Nome… Elohim…”.

A Criação do Homem, pela Cabala

Houve um momento em que a natureza era desprovida da vida, pelo menos humana, embora já dispusesse dos elementos e possibilidades latentes. O próximo passo foi iluminar este palco para o cenário do aparecimento do homem. Os ingredientes necessários para a ação eram definidos para que fossem compreendidos durante e depois… Se há um mito fundamental na cultura ocidental, é o da criação bíblica de Adão.
O texto da Torá (Pentateuco – 5 livros de Moisés, dos quais o Gênesis é o primeiro livro) nos quer mostrar a criação do universo como expressão da Vontade Divina (no enfoque da Cabala) a criação obedece a um propósito, e portanto é o princípio de tudo, e não somente a criação em si, mas a Providência, isto é, Deus como criador, legislador e Condutor do Universo.

O Gênesis apresenta a grande vantagem de evocar a relação entre o homem e a imagem. E esta nossa reflexão é a respeito disso. Um drama que se desenrola no céu? O mito da criação de Adão e Eva oferece a oportunidade de uma interrogação que podemos supor meta-histórica e sincrônica a respeito do homem, a temporalidade da história humana manifestando dia-dia o mesmo processo.

Sabemos através do Livro do Gênesis (1:27) que Adão, criado inicialmente macho e fêmea, carrega em s eu seio uma questão implícita (Gênesis, 1:26). Elohim diz a Si mesmo: “Faremos Adão a nossa imagem, conforme a nossa semelhança?” Em seguida ele estabelece, afirmando sua resposta: “Elohim cria Adão a sua imagem, à imagem de Elohim ele o cria, macho e fêmea, ele os cria” (Gênesis 1:27).

Esta dinâmica criativa supõe, como há uma dimensão masculina e feminina, que haja o casamento com a integralidade da imagem antes de pretender uma possível semelhança, este último termo, apreendido etimologicamente como expressão de uma analogia com o divino, incita a uma ontologia integral. Com quem Deus estava falando? A resposta é simples: Deus estava falando com a mesma entidade com quem falou nos dias precedentes – o universo inteiro! Deus na verdade está dizendo: “Que o cosmos (e tudo que nele existe) e Eu façamos o homem”.

Então, duas questões sobrepostas uma na outra se colocam: O que é criar? O que é chamado de imagem? Em hebraico, na ótica de uma reflexão simbólica sobre as palavras, o verbo criar, “Bara”, evoca, por suas letras, tanto uma dualidade por projeção das forças divinas, como uma construção vinda do centro, tendo como resultado uma produção ativa. Esta primeira análise coloca em evidência o movimento ao mesmo tempo dual e unido que se desenrola dos dois lados da letra “Resh”, que simboliza a cabeça. Criar evoca a ação de ir de um lugar a outro, de ir e de vir, ou ainda o nascimento e o devir, imagens que não deixam de sugerir nosso moderno conceito de espaço-temporalidade. Sem entrar no detalhe da simbólica que sustenta esta análise, saibamos que “criar”, compõe, com suas duas últimas letras, o radical do verbo “ver”, evocando também a relação com a luz, “Ra”.

No Gênesis (1:1) o verbo “criar” é usado pela primeira vez no primeiro versículo, “Bereshit Bara Elohim”, que é habitualmente traduzido por “no princípio” ou “no começo, Deus cria”. Mas é evidente que “criar”, Bara, remete diretamente à primeira palavra Bereshit, que é composta por seis letras, das quais as três primeiras compõem precisamente o verbo “criar”. As três letras seguintes de Bereshit, “Shit”, oferecem, por sua vez, uma palavra chave derivada, “Shin-iod”, que evoca o “falar”, o cantar, ou ainda “entreter-se”, “orar”, “meditar” e “lamentar-se”.

Esta maneira de jogar com as palavras, ainda que possa chocar algumas pessoas, é classicamente utilizada nas práticas cabalísticas judaicas. O início principal se declinaria então nesse jogo das letras como a relação diferenciada e conjugada do “ver” Raah (Ra) e do “falar” Siah (Shi) entre o começo (Bet) e o fim (Tav) do ato criador e, nesse ato de criação, o ver precede o falar, o último estando, no entanto indissoluvelmente ligado ao primeiro. Este mito confirma o que foi descrito acima sobre o processo de humanização: A imaginação precede a palavra, sem que haja, no entanto, separação radical entre elas.

Deixe uma resposta